
Pintou os lábios de vermelho mais uma vez...
Não é por vaidade, tudo é uma espécie de, de sei lá o que...
E ela tem andado pelas ruas com um ar tão sem destino, mas apesar de não carregar precisão nos olhos,nunca perde a hora, seus passos sempre a levam pro lugar certo, na hora exata... Mas tudo anda mecânico demais, como o batom vermelho...
E a vida soa como um ritual e parece ter um curso certo, hora pra dormir e levantar...
Ela se enfeita, mas no fundo sabe que não há amor para dar aos homens que a admiram...
Nada se expressa...As dores parecem ter medo de doer e as lágrimas sequer tem força pra chorar.
E agora, ela se troca diante do espelho e se sente tão intocada...A verdade é que ela queria saber amar alguém, queria sentir saudades,queria precisar de um abraço...Mas seu rosto e seu corpo do espelho parecem tão distantes
Ela queria se sentir por um instante,queria que doesse, queria que o corpo nu, ao menos respondesse ao frio... Mas as regras não se quebram e as sensações insistem em brincar de esconder...
O seu apartamento é no último andar, e eu me recordo bem do seu entusiasmo por conseguir a janela mais alta, ela adorava ver a vida correr daquela janela e ficar imaginando o que as pessoas pensavam enquanto andavam tão depressa, ela era tão linda e tão intensa...cheia de argumentos, quando falava todos sorviam cada palavra .Ela poderia amar o mundo inteiro daquela janela, era tanto o que ela sentia poder oferecer, que não havia como externar com palavras, e a verdade é que nem precisava, tudo transbordava na despretensão dos seus gestos...
E agora eu a vejo na janela a acender um cigarro...Deus,ela sempre odiara cigarros! A
fumaça lhe causava náuseas.
Ela traga fundo a nicotina e seu suspiro desiludido.
Amanhece...
E ela pinta os lábios de vermelho mais uma vez.